O mercado de compras públicas de inovação está em plena expansão no Brasil, e startups, empresas de tecnologia e fornecedores especializados precisam entender as regras do jogo para aproveitar esse filão bilionário. No Startup Summit, um dos maiores eventos de empreendedorismo e inovação do país, advogados especializados em licitações e gestores públicos se reuniram para debater como o governo pode — e deve — comprar mais de empresas inovadoras.
O tema ganhou força com a consolidação da Lei 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações) e do Marco Legal das Startups (Lei Complementar 182/2021), que juntos criaram instrumentos específicos para facilitar a contratação pública de soluções inovadoras. Para quem quer vender para o governo, entender esses mecanismos é o primeiro passo para conquistar contratos públicos.
Neste artigo, você vai entender quais são os principais instrumentos de compras públicas de inovação, como sua empresa pode se qualificar, quais são os desafios jurídicos e práticos do setor e o que os especialistas recomendam para fornecedores que querem entrar nesse mercado.
O que são compras públicas de inovação e por que elas importam para fornecedores
As compras públicas de inovação são contratações realizadas pelo governo com o objetivo de adquirir produtos, serviços ou soluções tecnológicas que ainda estão em desenvolvimento ou que representam uma novidade para o setor público. Diferente das licitações tradicionais, esses processos permitem maior flexibilidade e colaboração entre o poder público e o setor privado.
No Brasil, os principais instrumentos disponíveis para esse tipo de contratação são:
- Encomenda Tecnológica (ETEC): prevista na Lei 10.973/2004 (Lei de Inovação), permite que o governo contrate empresas para desenvolver soluções tecnológicas específicas, mesmo que o produto final ainda não exista. É ideal para startups com capacidade de pesquisa e desenvolvimento.
- Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI): criado pelo Marco Legal das Startups, permite que órgãos públicos contratem startups para testar soluções inovadoras em ambiente real, com contratos de até R$ 1,6 milhão e prazo de até 12 meses, prorrogável por mais 12.
- Processo de Manifestação de Interesse (PMI): instrumento pelo qual o setor privado pode apresentar estudos e projetos ao governo, influenciando futuras licitações.
- Licitações para soluções de TI: processos tradicionais, mas com critérios técnicos que favorecem empresas inovadoras quando bem estruturados pelos órgãos contratantes.
Segundo dados do Sebrae, o mercado de compras governamentais movimenta cerca de R$ 600 bilhões por ano no Brasil, e uma parcela crescente desse valor está sendo direcionada para soluções inovadoras. Para startups e empresas de tecnologia, trata-se de uma oportunidade concreta de crescimento e escala.
O que mudou com o Marco Legal das Startups para quem quer vender ao governo
A Lei Complementar 182/2021, conhecida como Marco Legal das Startups, trouxe mudanças significativas para o relacionamento entre o setor público e as empresas inovadoras. O principal avanço foi a criação do Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI), que dispensou a necessidade de licitação formal para contratações de menor valor com startups.
Na prática, isso significa que um órgão público pode contratar diretamente uma startup para testar uma solução inovadora, desde que o valor não ultrapasse o limite estabelecido e que o processo seja transparente e competitivo. O CPSI funciona como uma espécie de sandbox regulatório para o setor público: o governo testa a solução em ambiente real antes de escalar a contratação.
Para se qualificar como startup apta a celebrar um CPSI, a empresa precisa atender a alguns requisitos básicos:
- Ter até 10 anos de constituição ou registro no Brasil.
- Declarar que adota modelos de negócios inovadores para a geração de produtos ou serviços.
- Ter receita bruta anual de até R$ 16 milhões (ou R$ 300 milhões para fins de enquadramento como empresa inovadora).
- Estar em situação fiscal e trabalhista regular.
Advogados que participaram do painel no Startup Summit destacaram que muitas startups perdem contratos públicos por desconhecimento dos requisitos de habilitação. Manter certidões negativas atualizadas, regularizar o CNPJ e ter um contador experiente em licitações são passos básicos, mas frequentemente negligenciados.
Desafios jurídicos e práticos das compras públicas de inovação
Apesar dos avanços legislativos, os especialistas reunidos no Startup Summit foram unânimes ao apontar que ainda existem barreiras relevantes para a expansão das compras públicas de inovação no Brasil. Os principais desafios identificados foram:
1. Capacitação dos gestores públicos: Muitos servidores responsáveis por processos licitatórios ainda não conhecem os instrumentos disponíveis para contratar inovação. A falta de capacitação gera insegurança jurídica e faz com que os gestores optem pelos modelos tradicionais de licitação, mesmo quando existem alternativas mais adequadas.
2. Definição do objeto contratual: Contratar inovação é diferente de contratar um produto ou serviço já existente. O objeto do contrato precisa ser descrito de forma que permita flexibilidade para o desenvolvimento da solução, sem abrir mão da clareza necessária para evitar questionamentos do controle interno e externo.
3. Critérios de avaliação técnica: A avaliação de propostas inovadoras exige critérios técnicos sofisticados, que vão além do menor preço. A Nova Lei de Licitações permite o uso de critérios como melhor técnica e preço, técnica e preço, e maior retorno econômico, mas a aplicação prática ainda é incipiente em muitos órgãos.
4. Propriedade intelectual: A questão de quem detém os direitos sobre a solução desenvolvida em um contrato público de inovação ainda gera controvérsias. A Lei de Inovação prevê que os direitos podem ser compartilhados entre o governo e a empresa contratada, mas os termos precisam ser negociados e formalizados com cuidado.
Para os fornecedores, a recomendação dos advogados presentes no evento foi clara: buscar assessoria jurídica especializada antes de participar de qualquer processo de compra pública de inovação, especialmente para revisar minutas contratuais e entender as obrigações de entrega e os critérios de aceite da solução.
Como sua empresa pode começar a vender para o governo por meio da inovação
Se você tem uma startup ou empresa de tecnologia e quer aproveitar o mercado de compras públicas de inovação, existem passos concretos que podem acelerar sua entrada nesse segmento.
Mapeie os órgãos com maior propensão à inovação: Ministérios como o da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e agências reguladoras têm histórico de contratação de soluções inovadoras. Estados como São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina também têm programas estruturados de compras públicas de inovação.
Cadastre-se no SICAF e nas plataformas de compras governamentais: O Sistema de Cadastramento Unificado de Fornecedores (SICAF) é obrigatório para quem quer vender para o governo federal. Além disso, plataformas como o ComprasGov e o Portal de Compras do Estado são canais essenciais para acompanhar oportunidades.
Participe de editais de chamamento público e sandboxes regulatórios: Muitos órgãos publicam chamamentos públicos para identificar soluções inovadoras antes de estruturar um processo de contratação formal. Participar dessas iniciativas aumenta a visibilidade da sua empresa e pode resultar em contratos diretos via CPSI.
Invista em relacionamento com gestores públicos: Eventos como o Startup Summit são oportunidades valiosas para construir relacionamentos com servidores e gestores que tomam decisões de compra. O networking no setor público é tão importante quanto a qualidade técnica da solução oferecida.
Conclusão: o momento é agora para quem quer vender inovação ao governo
As compras públicas de inovação representam uma das maiores oportunidades de negócio para startups e empresas de tecnologia no Brasil. Com um arcabouço legal mais moderno, gestores públicos mais capacitados e uma demanda crescente por soluções que aumentem a eficiência do Estado, o ambiente nunca foi tão favorável para fornecedores inovadores.
O debate promovido no Startup Summit entre advogados e gestores públicos mostra que o setor está amadurecendo e que as barreiras existentes são superáveis com preparação, assessoria adequada e estratégia comercial focada no setor público.
Para quem ainda não começou, o primeiro passo é simples: regularize sua situação cadastral, estude os instrumentos disponíveis na legislação e comece a mapear os órgãos mais alinhados com a sua solução. O governo precisa de inovação — e está disposto a pagar por ela.
Fonte: Agência Sebrae de Notícias


